|
Página 1 de 3 Por Cláudio Azevedo Extraído de Azevedo, Cláudio; A Caminho no Ser: Uma Visão Transpessoal da Psicologia no Yoga Sūtra de Patāñjalī, Editora Órion, Fortaleza, 2.007 Para melhor visualização faça o download das fontes usadas no site: tahoma, tahoma bold, sanskrit98. Śantiḥ mantra (Invocação de paz) Oṁ saha nāvavatu. Saha nau bhunaktu Saha vīryam karavāvahai Tejasvināvadhīmastu mā vidviṣāvahai Oṁ śantiḥ, śantiḥ, śantiḥ Que Ele proteja a nós dois! Que Ele nos faça apreciar (a realidade)! Que nós dois tenhamos muita energia! Que nosso estudo tenha muita luz! Que nós dois jamais nos desentendamos! Que haja paz, paz, paz! Vedānta ( वेदान्त)A filosofia Vedānta (fim dos Vedas, em sânscrito), também conhecida como Uttara Mīmāṁsā (análise da última parte dos Vedas), foi primeiramente associada com as Upaniṣads e seus comentários por Bādarāyaṇa no Brahmā Sūtra, e, posteriormente, com a Bhagavad Gītā e o Vedānta Sūtra de Vyasa. Essa escola é, talvez, a pedra angular dos movimentos do hinduísmo atual e, certamente, foi a responsável por uma nova onda de investigação filosófica e meditativa, renovação da fé e reformas culturais.
A distinção básica entre Vedānta e Upaniṣad é que essa última apresenta o diálogo filosófico e o primeiro a filosofia em si. Embora as Upaniṣads e a Bhagavad Gītā sejam textos autorizados, no Vedānta darśana, é no Brahmā Sūtra que os ensinamentos dessa escola são expostos numa ordem lógica e sistemática. Além disso, o Brahmā Sūtra esclarece os aparentes versos contraditórios das Upaniṣads e expõe seus ensinamentos numa maneira sistemática. O Brahmā Sūtra consiste de 555 enigmáticos aforismos, em 4 capítulos, cada um dividido em 4 seções: - Samanvaya (harmonia ou coerência): explica que todos os textos do Vedānta falam de Brahmaṁ, a Realidade Última que é a meta de nossa vida;
- Avirodhaḥ (não-conflito): discute e refuta as possíveis objeções contra a filosofia Vedānta;
- Sādhana (os meios): descreve o processo pelo qual a libertação pode ser obtida;
- Phalā (os frutos): fala do estado que é alcançado após a libertação.
Com vários aparentes pontos de discordância com os sistemas Yoga e Sāṅkhya, o Vedānta darśana vê a busca do conhecimento (jñāna-kaṇḍa) e a auto-realização como os primeiros objetivos e a ação ritual (karma-kaṇḍa) e a adoração (upāsana-kaṇḍa) como acessórios. O caminho da libertação passa pelo estudo metafísico e não pela prática espiritual 3:50. É um darśana de cunho fortemente teísta, que propõe a teoria de māyā (ilusão) segundo o qual o mundo não é real tal como o percebemos. Vedānta analisa o campo transcendental e fala que o Absoluto (Brahmaṁ) possui um aspecto imanifesto e um manifestado, conhecido como Śabda Brahmaṁ (Som de Brahmaṁ). Dirige-se àqueles que possuem mumukṣutvaṁ, ou seja, que anseiam e buscam a liberação (mokṣa) da ignorância de sua verdadeira natureza. Dividiu-se em três grupos principais: Advaita Vedānta ( अद्वैत वेदान्त) Advaita literalmente significa ‘não dois’, ou seja, é um sistema não dualístico (monista) que enfatiza a unidade (monoteísta). Seu consolidador foi Śaṅkarācārya (788-820). Śaṅkara expôs suas teorias baseadas amplamente nos ensinamentos das Upaniṣads e de seu guru Gaudapada. Não é meramente uma filosofia, mas um sistema consciente de éticas aplicadas e meditação, direcionadas à obtenção da paz e compreensão da verdade, que Śaṅkara imortalizou no Viveka Chūdāmani (a Jóia Suprema da Sabedoria). Essa obra consiste de 580 versos em sânscrito, que não são divididos em capítulos ou seções, mas que apresentam um diálogo entre o Mestre e o discípulo, semelhante à Bhagavad Gītā. Disserta, de uma forma direta, lúcida e incisiva, sobre diversos assuntos como as qualificações necessárias para o caminho espiritual, aprender a discernir o real do irreal, controlar o pequeno ‘eu’ para obter a liberação e a união final com Deus. Através da análise da consciência nos três estados comuns da experiência humana (vigília, sonho e sono), exposta na Māṇḍūkhya, Taittirīya e Aitareya Upaniṣad, Śaṅkara explicou a natureza relativa do mundo e estabeleceu a realidade não dual, ou Brahmaṁ, alcançada pelo quarto estado da experiência humana, conhecido como turiya. Nesse estado comprova-se que a separação entre sujeito e objeto é ilusória e que Ātman (nosso Espírito) e Brahmaṁ (a Realidade Última – a Suprema Consciência) são absolutamente identificadas. Assim, baseado nas Upaniṣads, no Brahmā Sūtra e no Viveka Chūdāmani, determina essa unidade através das ‘Grandes Sentenças’ (Mahavākya) 37:254: - Tat Tvam Asi (Tu és Aquilo): Chāndogya Upaniṣad 30:95.
- Ahaṁ Brahmāsmi (Eu Sou Brahmaṁ): Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad 30:118.
- Ayam Ātman Brahmā (Esse Ātman é Brahmaṁ): Māṇḍūkhya Upaniṣad 30:68.
- Prajnānaṁ Brahmā (Brahmaṁ é Sabedoria): Aitareya Upaniṣad 30:84.
Prescreve também a ‘Prática Quádrupla’ (ou sādhana catuṣtayaṁ) TB:2-9: - Viveka (discernimento);
- Vairāgya (desapego) ou virāgaḥ (‘não rāga’);
- Satka-sampattih (seis virtudes): śama (tranqüilidade mental), damaḥ (autocontrole sobre os órgãos externos), uparama (cumprimento dos próprios deveres), titikṣā (equanimidade), śraddhā (fé ou confiança) e samādhānaṁ (equilíbrio); e
- Mumukṣutvaṁ (desejo firme e indomável de libertação).
Viśiṣṭādvaita Vedānta ( इशिस्थद्वैत वेदान्त)Rāmānuja (1.040 – 1.137) foi o principal divulgador do conceito de Śṛiman Narāyaṇa como Brahmaṁ, o Supremo. Outros expoentes desse sistema foram Natha Muni e Yamuncarya. A escola ensina que a Realidade Suprema (Brahmaṁ) , embora seja Nirākāra (sem forma) e Nirguṇa (sem qualidades), pode ser descrito como Satya (Verdade – Realidade), Jñāna (Conhecimento), Anantatva (Infinitude), Ānanda (Bem-aventurança) e Amalatva (Pureza), e possui três aspectos: Brahmā (o Criador), Viṣṇu (o Preservador) e Rudra (o Transformador). Tradicionalmente, a Trindade hindu é designada como composta por Brahmā, Viṣṇu e Śiva, mas como esse site faz referências constantes ao Śiva Sūtra, que considera Śiva como análogo a Brahmaṁ, substituímos aqui Śiva por Rudra. Afirma também que o Deus Absoluto é Īśvara (Viṣṇu ou Narāyaṇa), e que Ele, cit (a alma) e acit (a matéria) são a mesma coisa. Viṣṇu seria a única realidade independente, enquanto a alma e a matéria são dependentes dele para sua existência. Devido a esta qualificação tríplice da Realidade Última, o sistema de Ramanuja é conhecido como não-dualístico modificado (monismo qualificado), sendo um meio-termo entre as escolas Advaita e Dvaita Vedānta. Dvaita Vedānta (ड्वैत वेदान्त)Śrī Madhvācārya (1.199 - 1.278) também identificou Deus com Viṣṇu, mas a sua visão da realidade era puramente dualista, pois ele compreendeu uma diferenciação fundamental entre a Realidade Última (Brahmaṁ) e o nosso Espírito (Ātman), entre o Criador (Īśvara) e a criatura (Jīva), e o sistema, conseqüentemente, foi denominado Dvaita (dualístico) Vedānta. Para esse sistema, as almas individuais não foram criadas por Viṣṇu, mas coexistem com Ele e estão subjugadas à Sua Vontade eternamente. Divide as almas em três categorias: as qualificadas para a liberação (Mukti-yogyas), as presas eternamente à reencarnação (Nitya-samsarins) e as condenadas ao inferno eterno (Tamo-yogyas). A doutrina do inferno eterno está baseada no Bhagavad Gītā 16:19-20 e tenta explicar o eterno problema da existência do Mal.
|